Populismo prospera nos mercantilizados EUA e Reino Unido

Publicado em 16/06/2017 por Valor Online

Lionel Jospin, ex-premiê da França, disse certa vez: "Sim para a economia de mercado, não para uma sociedade de mercado". Qualquer pessoa que se pergunta por que os EUA e o Reino Unido foram mais atingidos pelo populismo do que muitas outras democracias poderá se lembrar dessas palavras. Nenhuma outra sociedade ocidental se mercantilizou tanto quanto os EUA e o Reino Unido. Vivemos para consumir. Há destinos piores do que esse. Mas o preço a pagar é que tendemos a esquecer o valor de outros fatores, como o valor intrínseco da democracia liberal. A punição vem do fato de você acreditar no próprio marketing. O pico da arrogância da democracia anglo-americana ocorreu no governo de George W. Bush, após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA. Apoiado pelo britânico Tony Blair, Bush anunciou que iria exportar a democracia à força para o Oriente Médio. Alemanha e França preferiram ficar de fora - uma sábia escolha que parece ainda melhor com o passar do tempo. Muito do cinismo antiestablishment nos EUA e no Reino Unido nasceu durante a Guerra do Iraque. Mas isso é insignificante diante do triunfalismo de uma geração do capitalismo anglo-americano. Durante a revolução Reagan-Thatcher, no começo dos anos 80, as duas maiores democracias de língua inglesa ressuscitaram suas máquinas de crescimento e deram um fim aos temores de um prolongado mal-estar. Ambos estavam certos em enfrentar os controles de preços e a agitação trabalhista na década de 70. Só que eles exageraram na correção. Centenas de milhares de advogados e financistas franceses podem ter se mudado para Londres na última geração. Muitos britânicos mais foram expulsos de sua própria capital. Como você dá um valor à democracia? Apesar de toda a sua estagnação, a França tem feito um trabalho melhor em manter à tona os seus esquecidos que seus rivais anglo-saxões. Há mais homens na faixa etária mais produtiva (24 aos 54 anos) empregados na França do que nos EUA, uma estatística inimaginável mesmo 10 anos atrás. O nível de desigualdade de renda na França é menor que nos EUA e no Reino Unido, que estão ambos próximos do topo do coeficiente Gini. Entre os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), somente Chile e México se saem pior que os EUA. O que vale para a França, vale também para a Alemanha, que parece prestes a reeleger um governo moderado em setembro. Esses dois países provavelmente estão cientes demais de suas próprias fragilidades para sucumbir a demonstrações de mea culpa. Emmanuel Macron, o presidente da França, planeja uma série de reformas à la Thatcher do mercado de trabalho que irão testar a sua provável maioria no Parlamento. Menos da metade dos eleitores franceses votaram no primeiro turno das eleições legislativas de domingo, o que é um pouco mais que nas eleições legislativas de meio de mandato nos EUA. No mês passado, num comparecimento maior às urnas, um terço do país de Macron votou em Marine Le Pen, sua adversária neofascista. Mesmo que Angela Merkel vença facilmente, a Alemanha caminha para sua primeira eleição do pós-guerra em que a extrema direita deverá superar a barreira de 5% para conquistar de assentos no Bundestag (o Parlamento alemão). Mas esses são problemas menores do que os enfrentados pelos EUA e o Reino Unido. Por que esses países estão tão enrascados? Por três motivos. O primeiro é que eles caíram na sua própria propaganda. Não há outros dois países que tenham se empenhado tanto em divulgar suas meritocracias quanto os EUA e o Reino Unido. Ainda assim, os dois disputam os piores índices de mobilidade de renda do mundo ocidental. É incrível que, sob certas medidas, seja mais difícil galgar a pirâmide de renda nos EUA do que no Reino Unido, país tão afeito às classes. Mesmo assim o Reino Unido supostamente é uma sociedade que mudou muito desde a sacudida dos anos Thatcher. Os EUA sem classes sociais e o Reino Unido pós-classes são as sociedades ocidentais mais rígidas nesse aspecto tão importante. Em segundo lugar, as elites de língua inglesa perderam a confiança em metade de sua população. Os EUA e o Reino Unido sofrem de uma ilusão com o valor da qualificação. Eles confundem rotineiramente um diploma universitário com ser capacitado. Os que não têm diplomas teoricamente não são qualificados. O norte da Europa tem uma compreensão melhor dessa distinção. Na Alemanha, há dignidade atrelada ao trabalho profissional. Nos EUA e no Reino Unido, a ausência de um diploma universitário faz de você um perdedor. Não é acidente o fato de os menos educados - e os mais desprezados - terem votado em Donald Trump e no Brexit. O perigo é essas duas decisões nos afastarem ainda mais de uma solução. Em terceiro lugar, os dois países carecem de memória histórica da falência do sistema. Os EUA e o Reino Unido se destacam entre as democracias ocidentais pelo fato de não terem sido marcados por revoluções nem ocupações durante o século XX. Quanto mais longo o período de estabilidade de um país, mais complacente ele tende a se tornar. Só os paranoicos sobrevivem nos negócios. O mesmo se aplica ao establishment político. Nos mercados eles chamam isso de "momento Minsky" - os ativos gozam de estabilidade por tanto tempo que os investidores começam a assumir demasiados riscos. As elites anglo-americanas estão brincando com a confiança do público. Há muito elas merecem uma punição.