Por que as ONGs surgem em momentos de crise e como criá-las com sucesso?

Publicado em 26/07/2016 por Jornal O Estado do Ceará

Sabemos que a sociedade precisa de muitos cuidados. Historicamente, os governos não têm conseguido atender demandas de forma integral, como na área da saúde, educação e meio ambiente, surgindo, assim, diversas organizações do Terceiro Setor. Antes de criar uma organização não governamental (ONG) é preciso saber o seu papel e principais desafios para que menos surpresas apareçam no caminho.

As primeiras iniciativas quanto às ONGs na América Latina, apareceram entre as décadas 1940 e 1960. Na ocasião, o cenário das diversas formas de exclusão social fez com que a população se organizasse em grupos para defender seus direitos em busca de justiça e liberdade. Uma quantidade enorme de organizações foi estabelecida, chegando ao número aproximado de 290 mil organizações em 2010, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na pesquisa Fasfil (fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil).

Um dos resultados apresentados pela pesquisa é "a dificuldade de manutenção das entidades menores ao longo dos anos". Ou seja, mais que responder às demandas da sociedade, a sobrevivência das entidades sem fins lucrativos é fator crucial. Isso porque, com a aspiração de "mudar o mundo", alguns empreendedores acabam criando uma ONG, mas sem nenhum planejamento.

Ainda segundo o IBGE, "as pequenas entidades, que não possuem sequer um empregado formalizado, somam 72,2% das Fasfil". "A forte presença do trabalho voluntário e da prestação de serviços autônomos pode explicar, parcialmente, tal fenômeno". Para criar uma ONG de sucesso, é necessário estabelecer uma linha lógica de ações e ter conhecimento básico sobre leis, como o novo Marco Regulatório da Sociedade Civil (Lei 13.019/14).

Parte fundamental para a criação de uma ONG é seu "plano de negócio". Seus gestores precisam ter claramente: o que ela fará, como e de onde virá o recurso. Não faz sentido ter uma causa sem saber quanto ela custa.
Outro ponto fundamental é: com quem a organização irá repartir suas atividades, quem serão os envolvidos? Precisamos ser conscientes que, após o calor inicial, muitas pessoas engajadas podem desistir daquela causa. A falta de mão de obra especializada é outro desafio também para o Terceiro Setor.

Com este plano em mãos, é hora de criar o estatuto. Daí em diante uma série de ações burocráticas é tomada, tornando aconselhável a contratação de um contador. Entre essas ações, está a obtenção do CNPJ, o registro fiscal na prefeitura do município, até chegar a criação de uma conta bancária.
ONG não é só captação de recursos. Mais do que isso, a falta de profissionalização na gestão é o principal inimigo responsável pela falta de sucesso das ações. Não estou burocratizando algo que deveria ser prazeroso.

Para uma sociedade civil mais organizada, precisamos de organizações organizadas e não apenas com vontade. Somente com esse novo pensamento, conseguiremos caminhar ao desenvolvimento da sociedade, com conceitos, modelos e argumentos essenciais para que o projeto concretize a missão destinada.

ARTIGO
Por José Alberto Tozzi*

*Autor do livro "SOS da ONG" - Administrador de Empresas pela FGV, graduado
em Ciências Contábeis e MBA Executivo Internacional na FIA, é mestre em Administração com ênfase no Terceiro Setor pela PUC - SP