Projeto criado por teatro em Berlim dá espaço a atores de Síria, Palestina e Afeganistão

Publicado em 18/06/2017 por O Globo

Em cena. Peça mistura memórias de uma viagem pela Alemanha e histórias pessoais do elenco - Divulgação / Ute Langkafel/MAIFOTO

BERLIM - Em uma viagem de duas semanas no auge do inverno, Ayham, Maryam, Hussein, Mazen, Kenda e Karim tentam entender o país de seu exílio. Eles estão cansados de ser o principal assunto da Alemanha nos últimos dois anos. "O tema é sempre a gente, nossa origem, nossa cultura, nossa história", dizem, no palco, ao alemão Niels, que os guia por cinco cidades do país e Zurique, na Suíça.

A jornada de ônibus, em janeiro deste ano, foi o ponto de partida do primeiro projeto do Exil Ensemble, formado por atores e atrizes de Síria, Palestina e Afeganistão, criado no fim do ano passado pelo Teatro Maxim Gorki, em Berlim - cujo elenco principal também é multinacional. Em "Winterreise" ("Viagem de inverno") - que, após estrear em Berlim, começa hoje a circular a Alemanha -, memórias dos lugares visitados se unem a histórias pessoais do elenco, que criou o espetáculo junto à diretora Yael Ronen.

- A ideia do elenco é poder continuar como ator fora de seu país. Escolhemos profissionais, não somos uma ONG - afirma o sírio Ayham Majid Agha, diretor artístico e ator do Exil Ensemble. - Exil (Exílio) nos categoriza, esse é o lado complicado do nome, mas não somos como freelancers que vêm e podem voltar se não der certo. Politicamente também é importante, não podemos ignorar que estamos aqui por causa da guerra.

Ayham formou-se e lecionou na Academia de Artes Cênicas de Damasco, de onde vieram outros atores do elenco, e por sete anos percorreu o interior da Síria com um projeto interativo inspirado no Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. A partir de 2011, quando se tornou mais ofensivo contra o regime de Bashar al-Assad, foi perseguido e torturado. Mudou-se para o Líbano e, numa viagem de trabalho à Alemanha em 2013, deparou-se com uma mudança na lei libanesa que impedia seu retorno. O visto alemão expirou. Ayham dormiu no aeroporto, no parque, foi fazendo amigos e ficou. Hoje é casado e tem uma filha em Berlim.

Antes do Exil Ensemble, Ayham atuou em duas produções do Gorki que tratavam de refúgio e guerra, "In unserem Namen" ("Em nosso nome") e "The situation" ("A situação"), esta também dirigida por Yael Ronen, sobre o conflito árabe-israelense. Ambas fazem parte de um programa concentrado em questões de identidade e pertencimento, que fez o Gorki ficar conhecido como o teatro dos imigrantes em Berlim, sob a direção de Shermin Langhoff, nascida na Turquia e desde criança na Alemanha. As produções têm legendas em inglês, e no palco, além de alemão, falam-se árabe, turco, inglês.

É assim também em "Winterreise", em que, por fim, o elenco trata de suas experiências de exílio, mas também expõe a Alemanha como objeto estranho, invertendo a relação a que estão acostumados.

Niels queria mostrar a Dresden do romantismo alemão, mas eles chegaram no dia da manifestação do movimento de extrema-direita Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente). Da janela do hotel, Hussein e Karim tentam entender os cartazes. "Batatas em vez de doner", "Nós somos o povo" e "Fatima Merkel", junto a uma foto da chanceler alemã de véu islâmico."Fatima Merkel? Pensei que ela se chamava Angela. Será que Fatima é seu segundo nome, como Barack Hussein Obama? Não sabia que ela era muçulmana."

Lembranças de destruição

O humor reaparece em observações sobre o comportamento alemão. A palestina Maryam Abu Khaled leva para o palco seu estranhamento com os relacionamentos abertos em Berlim.

- Eu não queria falar mais uma vez sobre ser uma palestina negra, e os relacionamentos são uma catástrofe na Alemanha - diz, rindo, Maryam, que também atua em "In unserem Namen" e "The situation" e dirigiu o documentário "Art/Violence" (2013), sobre o Freedom Theatre, no campo de refugiados de Jenin, onde atuou. - Em Jenin, como mulher, eu não deveria nem estar no palco. Para representar um beijo, por exemplo, tínhamos que apagar a luz. Eu era a mais aberta em Jenin, mas aqui foi um choque ver pessoas nuas em cena. Dois anos depois, é um grande salto falar de sexo no palco.

A leveza do humor é quebrada pela dor da fuga e por lembranças de destruição - também alemãs, como na visita ao campo de concentração Buchenwald. Recém-chegado, o sírio Mazen não quis entrar. "Tenho dor de estômago, quero vomitar as memórias", diz, no palco, sem entender por que aquele é um lugar de turismo. "Os horrores de hoje se tornarão os museus com cantina de amanhã."