A reação de Temer ao delator, o empresário Joesley Batista

Publicado em 18/06/2017 por Correio Braziliense Online

Crédito: Beto Barata/PR
Temer garantiu que tomará todas as medidas cabíveis contra o empresário Joesley Batista
 

Exatamente um mês após a maior ofensiva contra o governo Michel Temer, o Palácio do Planalto anunciou que processará o empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS e responsável pela crise mais forte desde que o peemedebista assumiu o lugar da ex-presidente Dilma Rousseff, em agosto de 2016.

 

Em nota divulgada ontem pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Temer garantiu que "tomará todas as medidas cabíveis" contra o empresário, que ele acusou, mais uma vez, de "desfiar mentiras em série". Amanhã, o presidente pretende protocolar ações civil e penal contra Joesley.

 

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Desde que vazaram as gravações comprometedoras entre Temer e Joesley no Palácio do Jaburu, em maio passado, o Planalto tem atuado em duas frentes para amenizar a situação. Uma delas é acusar o empresário de, ao apontar o dedo para Temer, proteger "os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens" e os "grandes tentáculos da organização criminosa" que ele teria ajudado a forjar.

 

Embora não tenha citado explicitamente os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ele fez referência clara aos governos do PT, que teriam instalado a política de campeões nacionais no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A nota do Palácio do Planalto lembra que, em 2005, o Grupo JBS, de Joesley, conseguiu o primeiro financiamento no banco de fomento e, dois anos depois, faturava R$ 4 bilhões. Em 2016, o faturamento das empresas da família Batista chegou a R$ 183 bilhões. "Relação construída com governos do passado, muito antes que o presidente Michel Temer chegasse ao Palácio do Planalto", destaca o texto.


Temer busca se defender da nova acusação de Joesley, publicada ontem pela revista Época, de que seria o chefe da "maior e mais perigosa organização criminosa do Brasil". Segundo o empresário, os integrantes do grupo que não estão presos, hoje, estão no Planalto. Ele citou, entre os integrantes da "organização criminosa", o ex-deputado Eduardo Cunha, os ex-ministros Geddel Vieira Lima e Henrique Alves, além do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco. Moreira Franco negou ontem ter relacionamento com Joesley e afirmou que esteve com o empresário "uma única vez, em um grupo de brasileiros, numa viagem de trabalho em Pequim".

 

Outra estratégia que tem sido usada pelo governo para defender Temer é desqualificar as acusações e os delatores. Desde que as delações foram divulgadas, o presidente acusa Joesley de ser um "criminoso", que lucrou milhões de dólares ao especular com uso de informação privilegiada e deixar o país.

 

 

Na troca de farpas mais recente, ontem, Temer afirmou que o dono da JBS é "o bandido notório de maior sucesso na história brasileira", por ter conseguido enriquecer "com práticas pelas quais não responderT e, de quebra, ainda manter o patrimônio no exterior "com o aval da Justiça". "Suas mentiras serão comprovadas e será buscada a devida reparação financeira pelos danos que causou, não somente à instituição Presidência da República, mas ao Brasil", diz a nota da Presidência.


O vice-líder da bancada do PMDB na Câmara dos Deputados, Carlos Marun (MS), um dos mais ferrenhos defensores de Temer no Congresso, definiu a entrevista de Joesley como "mais um capítulo" de uma "conspiração asquerosa" contra o presidente da República e as reformas que vêm sendo tocadas pelo governo. "Trata-se de mais um capítulo dessa novela em que se constitui a conspiração asquerosa que tenta acabar com as reformas, depor o presidente Temer e garantir exílio dourado para Joesley e para os outros delinquentes que o cercam", disse Marun. "É óbvio que, orientado por sua defesa, o meliante tenta proteger seu escandaloso e benevolente acordo de delação, que está sendo contestado na Justiça já que a lei veda o perdão judicial a chefes de quadrilha delatores", completou.

 

Maia rebate nota da OAB

 

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), rebateu as declarações do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Carlos Lamachia, de que é preciso "pautar com urgência a análise dos pedidos de impeachment" contra o presidente Michel Temer. Para Maia, não cabe à OAB "comentar ritos do processo legislativo".


"Não me cabe comentar as resoluções do Conselho Federal da OAB, não sou comentarista de agenda de advogados", ironizou. "Como também não creio que caiba ao presidente da OAB comentar ritos e procedimentos do processo legislativo", disse Maia à Agência Estado.


As declarações de Maia foram uma resposta ao comunicado da OAB sobre a entrevista concedida pelo empresário Joesley Batista, da JBS, à revista Época. Diante das acusações feitas por Joesley na entrevista, Lamachia afirmou que a Câmara "não pode continuar agindo com cinismo, como se nada estivesse acontecendo no país".


"O presidente da Câmara deve satisfação", disse Lamachia. A OAB protocolou pedido de afastamento em 25 de maio. A entidade atribui a Temer crime de responsabilidade, em violação ao artigo 85 da Constituição. 

 

Recurso de Aécio é negado  

 

O ministro Marcelo Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, indeferiu o recurso da defesa do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) que pedia mais 10 dias de prazo para se defender do pedido de prisão apresentado pela Procuradoria-geral da República, alegando que a PGR apresentou "fato novo". Marco Aurélio considerou que os fatos poderão ser alvo de esclarecimentos da defesa a serem juntados ao processo. O ministro também negou que o pedido de prisão de Aécio seja apreciado pelos 11 ministros do plenário da Corte e não pela 1ª Turma, como solicitava a defesa. Marco Aurélio manteve a apreciação do caso para a próxima terça-feira. A Primeira Turma é formada por Marco Aurélio, Luiz Fux, Rosa Weber, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

 

Principais trechos do comunicado do Planalto


"Em 2005, o Grupo JBS obteve seu primeiro financiamento no BNDES. Dois anos depois, alcançou um faturamento de R$ 4 bilhões. Em 2016, o faturamento das empresas da família Batista chegou a R$ 183 bilhões. Relação construída com governos do passado, muito antes de o presidente Michel Temer chegar ao Palácio do Planalto. Toda essa história de 'sucesso' é preservada nos depoimentos e nas entrevistas do senhor Joesley Batista. Os reais parceiros de sua trajetória de pilhagens, os verdadeiros contatos de seu submundo, as conversas realmente comprometedoras com os sicários que o acompanhavam, os grandes tentáculos da organização criminosa que ele ajudou a forjar ficam em segundo plano, estrategicamente protegidos.

Ao bater às portas do Palácio do Jaburu, depois de 10 meses do governo Michel Temer, o senhor Joesley Batista disse que não se encontrava havia mais de 10 meses com o presidente. Reclamou do Ministério da Fazenda, do CADE, da Receita Federal, da CVM, do BC e do BNDES. Tinha, segundo seu próprio relato, as portas fechadas na administração federal para seus intentos. Qualquer pessoa pode ouvir a gravação da conversa na internet para comprová-lo. (...)

Em entrevista, ele diz que o presidente sempre pediu algo a ele nas conversas que tiveram. Não é do feitio do presidente tal comportamento mendicante. Quando se encontraram, não se ouviu ou se registrou nenhum pedido do presidente a ele. E, sim, o contrário. Era Joesley quem queria resolver seus problemas no governo e, por isso, pede seguidamente. Não foi atendido antes, muito menos depois.(...)

Os fatos elencados demonstram que o senhor Joesley Batista é o bandido notório de maior sucesso na história brasileira. Conseguiu enriquecer com práticas pelas quais não responderá e mantém, hoje, seu patrimônio no exterior com o aval da Justiça. Imputa a outros os seus próprios crimes e preserva seus reais sócios. Obtém perdão pelos seus delitos e ganha prazo de 300 meses para devolver o dinheiro da corrupção que o tornou bilionário - e com juros subsidiados. (...)

O presidente tomará todas as medidas cabíveis contra esse senhor. Na segunda-feira, serão protocoladas ações civil e penal contra ele. Suas mentiras serão comprovadas e será buscada a devida reparação financeira pelos danos que causou, não somente à instituição Presidência da República, mas ao Brasil. O governo não será impedido de apurar e responsabilizar o senhor Joesley Batista por todos os crimes que praticou, antes e após a delação."


Secretaria Especial de Comunicação Social

Presidência da República