Sob suspeita, dirigente do fundo FI-FGTS é pressionado a sair

Publicado em 18/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Recém-eleito presidente do comitê de investimentos do FI-FGTS, o bilionário fundo que aplica em infraestrutura dinheiro do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) dos trabalhadores, Luiz Fernando Emediato deve renunciar na próxima semana.

Executivos de empresas atingidas pela Operação Lava Jato que colaboram com as investigações, como a Odebrecht e a JBS, disseram ter pago propina a políticos e dirigentes do comitê em troca de recursos do fundo, que tem cerca de R$ 35 bilhões.

Emediato, que é jornalista e dono da editora Geração Editorial e entrou no comitê do fundo por indicação da Força Sindical, foi apontado por delatores como uma das pessoas que receberam propina.

Logo depois da eleição do jornalista, no fim de maio, integrantes do Conselho Curador do FGTS, de onde sai o dinheiro do FI-FGTS, começaram a articular um pedido de afastamento de Emediato até que a situação seja resolvida.

Nos últimos dias, a pressão aumentou. O deputado federal Paulinho da Força (SD-SP), que preside a central sindical, foi acionado pelo ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira (PTB), para convencer Emediato a renunciar.

À Folha Emediato negou as acusações dos delatores, mas disse que não tem mais interesse em continuar no comitê. Ele afirmou preferir a renúncia ao afastamento, e ainda avalia com seus advogados se essa medida não significaria assumir culpa.

O comitê do FI-FGTS tem 11 integrantes -seis representam o governo, dois são indicados por sindicatos e três pelas empresas. O mandato do presidente é de um ano, e o cargo é preenchido por um rodízio de representantes das três bancadas. Neste ano, chegou a vez da Força Sindical.

Emediato está sob investigação desde que Fábio Cleto, vice-presidente da Caixa que tinha assento no comitê do FI-FGTS, fechou acordo de delação premiada e apontou como líder do esquema de corrupção no fundo o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está preso em Curitiba.

Dois ex-executivos da Odebrecht que se tornaram delatores, Benedicto Junior e Paulo Cesena, afirmaram que pagaram propina a Eduardo Cunha e integrantes do comitê, entre eles Cleto e Emediato.

Seu nome também foi citado por Ricardo Saud, ex-diretor de relações institucionais da J&F, dona da JBS. Saud disse ter pago R$ 2,8 milhões a Emediato quando ele trabalhava no Ministério do Trabalho para que fiscalizasse frigoríficos concorrentes da JBS.

MUDANÇAS

As delações fizeram a Caixa reformular o FI-FGTS, que deixou de investir na compra de ações das empresas favorecidas e agora só libera recursos para empréstimos.

Para se habilitar aos financiamentos, os interessados precisam se inscrever nas chamadas públicas. Cada projeto é analisado por funcionários da Caixa antes de ser submetido à apreciação do comitê de investimento. Os projetos aprovados nessa instância seguem para o conselho curador, que dá a palavra final.

OUTRO LADO

O jornalista Luiz Fernando Emediato negou ter recebido propina para liberar recursos do FI-FGTS à Odebrecht e apertar a fiscalização de concorrentes da JBS.

"Vou provar minha inocência", disse Emediato. "Não estava lá [no comitê] quando votaram projetos da OTP [empresa do grupo Odebrecht], da OAS, Eldorado [dos donos da JBS], nada."

Emediato confirmou ter discutido com o diretor da JBS, Ricardo Saud, a fiscalização de frigoríficos pelo Ministério do Trabalho, mas nega ter atendido seu pedido.

"Os pagamentos que recebi do grupo [J&F] se devem às campanhas publicitárias que fiz", disse o jornalista. "Eu tenho notas fiscais, tenho como comprovar."

Emediato reconhece que sua situação no FI-FGTS ficou complicada. "Estudo o que fazer porque, se renunciar, meu suplente terá de assumir, e ele me disse que não quer", afirmou. "Prefiro sair. Não quero saber de mais nada. Mas preciso avaliar se isso atrapalha minha defesa [nas investigações]."