Sobreoferta de minério de ferro deve continuar alta e prêmio tende a cair

Publicado em 19/06/2017 por DCI

19/06/2017 - 05h00

Sobreoferta de minério de ferro deve continuar alta e prêmio tende a cair

Com a desaceleração do consumo chinês, os preços do insumo estão se estabilizando, enquanto a diferença paga pelo produto mais rico - grande aposta da brasileira Vale em Carajás - pode recuar

São Paulo - Enquanto o excesso de capacidade global de minério de ferro permanece, a demanda pelo insumo tende a se estabilizar. Diante deste cenário, os preços não devem ter grandes saltos e o prêmio pago pela commodity com teor acima de 62% pode continuar caindo.

As três principais produtoras de minério de ferro do mundo, a brasileira Vale e as anglo-australianas Rio Tinto e BHP Billiton, investiram pesado nos últimos anos em minas de baixo custo de produção e alto teor de ferro contido (de até 67%).

Contudo, em um cenário de desaceleração da demanda, especialmente por parte da China - responsável por metade do consumo global -, os preços devem ficar estáveis nos próximos anos.

De acordo com o estrategista-chefe da Upside Investor, Pedro Galdi, as majors têm se adaptado ao novo cenário. "O minério de ferro da Vale em Carajás é tão nobre que a empresa acaba precisando blendar com produtos de teor menor para escoar a produção", pondera.

Para o analista de mineração da Tendências Consultoria, Felipe Beraldi, uma das saídas usadas pelas empresas com minério riquíssimo tem sido justamente o blend. "Já que o mercado global não tem consumido o volume esperado de minério de ferro, esta é uma das estratégias viáveis", esclarece.

Executivos da Vale têm afirmado que os embarques de minério blendado vão aumentar neste ano, em razão de uma demanda "não tão exuberante." A mineradora já chegou a obter, há pouco mais de um ano, prêmios da ordem de US$ 9 por tonelada com o minério de Carajás com teor médio de 65%.

"Não adianta oferecer um minério tão rico se o mercado não está demandando tanto", comenta Galdi. "Além disso, não são todas as empresas que têm fornos modernos para absorver esse minério tão nobre", complementa o analista.

De acordo com índice da Metal Bulletin da sexta-feira (16), a cotação do minério de ferro para teor referência de 62% atingiu US$ 55,75 a tonelada, enquanto o desconto para o produto de 58% alcançou US$ 10 por tonelada, atingindo cotação média de US$ 44.

Há um mês, o mesmo índice da Metal Bulletin apontava uma cotação de US$ 60,8 por tonelada de minério 62% e US$ 52 a tonelada do produto de 58% de ferro contido.

"No ano passado, observamos um salto no consumo de minério de ferro na China devido aos estímulos do governo para obras de infraestrutura", explica Beraldi. Mas, segundo o analista, agora está ocorrendo uma reversão no mercado.

"A China deve migrar gradualmente para uma economia de consumo. Isso deve impactar a demanda por aço e, consequentemente, de minério de ferro", pondera.

Neste cenário, o analista estima que o excesso de oferta global deve permanecer até meados de 2020. "Até lá, os produtores marginais com custo de produção acima de US$ 80 tendem a sair do mercado, equilibrando paulatinamente a relação entre oferta e demanda", complementa.

Competitividade

A estratégia das majors do setor de inundar o mercado transoceânico vem contribuindo para os preços oscilarem fortemente nos últimos três anos. Após uma queda vertiginosa no final de 2014, houve uma escalada substancial das cotações principalmente no início deste ano, o que não perdurou no segundo trimestre.

Neste contexto, o movimento esperado pelo mercado é o de fechamento das minas deficitárias, que não conseguem operar com preços mais baixos. Operações como a da Vale, em Carajás, e da Rio Tinto, em Pilbara (Austrália), devem ganhar destaque.

"Ainda que os prêmios pagos pelo minério com alto teor não sejam tão altos, a competitividade dessas empresas vai crescer em um cenário de demanda estável", avalia Beraldi.

Para Galdi, a partir de 2018 a Vale provavelmente já deve estar com uma situação mais confortável de caixa. "Mesmo com um prêmio baixo, a operação da companhia ainda é rentável", salienta.

Ele acrescenta que preços baixos tiram margens das mineradoras, porém, cotações muito elevadas também estimulam a reativação de minas deficitárias, desequilibrando novamente o mercado global.

"Um meio termo nessa conta é o que acaba sendo vantajoso para mineradoras como a Vale", destaca Galdi.

Segundo projeção da Tendências, o preço médio do minério de ferro deve ficar em US$ 63,50 neste ano, alta de 10,3% sobre 2016. Já em 2018, a cotação deve recuar novamente, para aproximadamente US$ 57 a tonelada. "No ano que vem, o mercado ainda estará em período de ajustes", observa Beraldi.

Juliana Estigarríbia

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