TERRA ESTRANGEIRA - Maior dificuldade é o acesso ao mercado de trabalho

Publicado em 17/06/2017 por Folha de Londrina


Fotos: Gustavo Carneiro
Fotos: Gustavo Carneiro - O padre haitiano Wilnie Jean acompanha o dia a dia dos seus compatriotas e vê as dificuldades enfrentadas por eles desde a chegada ao Brasil
O padre haitiano Wilnie Jean acompanha o dia a dia dos seus compatriotas e vê as dificuldades enfrentadas por eles desde a chegada ao Brasil

O padre haitiano Wilnie Jean chegou a Cascavel (Oeste) há um ano, onde vivem cerca de 4 mil migrantes vindos do Haiti. O missionário scalabriniano acompanha o dia a dia dos seus compatriotas e vê as dificuldades enfrentadas por eles desde a chegada ao Brasil. "A maioria está procurando trabalho. Sem salários, são muitas as dificuldades financeiras. Falta dinheiro para pagar aluguel, luz, água, gás. Essa é a maior dificuldade, não só dos refugiados e migrantes haitianos, mas também dos africanos, bengaleses e de outras nacionalidades que hoje vivem no País", relata.
Os serviços da assistência social, ressalta o padre, auxiliam a satisfazer as necessidades mais urgentes, mas não resolvem o problema. "Às vezes eles recebem a ajuda de uma cesta básica, uma roupa. Mas você dá um pacote de feijão a uma pessoa e uma semana depois não tem mais", diz o missionário, que vê nas aulas de costura e artesanato uma forma de colaborar para que essas pessoas comecem a caminhar sozinhos.
"Agora começam a vir os filhos e as esposas dos haitianos que chegaram há alguns anos e as arquidioceses, pastorais do imigrante e as Cáritas aqui do Paraná se reúnem a cada dois meses para relatar experiências e ver que trabalho podemos fazer juntos para ajudar essas pessoas já que o Estado é ausente em algumas coisas", ressalta o padre.
Mas a principal ajuda, reconhece o missionário, é fazer essas pessoas chegarem ao mercado de trabalho. Se a situação está difícil para os próprios brasileiros, para os haitianos, que não têm carteira de trabalho nem a documentação regularizada, é tudo ainda mais complicado. "Eles gastam muito dinheiro. Só para conseguir o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), para poder regularizar a situação e trabalhar aqui, são R$ 400 de taxas que devem ser pagos à Polícia Federal. Quando conseguem um trabalho, é por um salário mínimo, de pouco mais de R$ 900. Só o aluguel custa de R$ 500 para mais. Por isso há sempre cinco ou seis haitianos vivendo na mesma casa, para dividir as despesas. Essa é a dificuldade que temos com os migrantes."
Quando o estrangeiro tem formação e precisa regularizar seu certificado do ensino médio ou superior, são mais taxas. É preciso conseguir cópias de todos os documentos a um custo de US$ 20 a US$ 25 por cópia. Para obter o visto, são mais US$ 60. Para comprovar que é refugiado, a taxa custa US$ 200. É tudo muito caro fora o custo da viagem, que fica entre US$ 1,5 mil e US$ 2 mil", calcula o padre, para concluir que quem decide deixar o Haiti para viver no Brasil já inicia a nova vida com muitas despesas. "Em outubro de 2017 a missão de paz da ONU (Organização das Nações Unidas) vai deixar o Haiti. A expectativa é que os migrantes e refugiados tentem retornar para ficar perto da família, mas muitos não têm dinheiro para fazer a viagem de volta."
No último domingo (11), padre Wilnie Jean esteve em Rolândia para celebrar uma missa em crioulo haitiano em homenagem à 32ª Semana do Migrante, comemorada de 18 a 25 de junho. Na ocasião, o missionário aproveitou para orientar seus conterrâneos sobre a importância da unidade e da fraternidade para sobreviver em um país estrangeiro.