Universidade católica terá curso sobre intolerância religiosa coordenado por babalaô

Publicado em 19/06/2017 por O Globo

Babalaô Ivanir dos Santos coordena o curso - Cléber Júnior / Extra

RIO- Em tempos de intolerância, a existência de um curso composto por professores de diferentes religiões, coordenado por um babalaô e sediado em uma universidade católica parece estar mais próxima do sonho que da realidade. No último dia 7 de junho, no entanto, a pós-graduação lato sensu de "Pluralidades e Intolerância Religiosa" foi aprovada por unanimidade no conselho da Universidade Católica de Petrópolis.

Com um corpo docente que inclui católicos, umbandistas, judeus, muçulmanos, protestantes e uma ex-testemunha de Jeová, o curso começará em agosto, com uma turma na universidade em Petrópolis e outra no centro de estudos Dom Vital, no Rio. Para se candidatar ao curso, é necessário ter diploma de graduação reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC).

- Fiz questão de ter uma equipe plural nesse curso. Uma coisa é falar sobre intolerância, outra é saber lidar com ela. Não é um curso de teologia, embora abordemos diversas religiões. É uma mensagem contra intolerância a favor do diálogo. Há aqueles que não querem o diálogo, mas há um setor amplo que quer - analisa o babalaô Ivanir dos Santos, que irá coordenar o curso de pós-graduação.

Embora qualquer pessoa com curso superior possa se candidatar à pós-graduação, o curso pretende atingir, prioritariamente, professores das redes particular e pública de ensino, jornalistas e líderes religiosos. O curso também pretende alcançar magistrados e outros agentes que possam trabalhar o tema de forma responsável, com habilidade para mediar conflitos e criar programas sobre o assunto.

- Queremos formar pessoas capazes de desenvolver políticas públicas relativas à intolerância. Precisamos potencializar a capacidade das pessoas de entenderem o outro, promover a liberdade de culto e a não agressão. Juízes, advogados e professores estão frequentemente envolvidos em problemas relacionados à intolerância. As manifestações da umbanda e do candomblé muitas vezes são violentadas. As pessoas precisam entender e respeitar os diversos credos - afirma o presidente do Centro Dom Vital e diretor do Centro de Teologia da Universidade Católica de Petrópolis, Carlos Frederico da Silveira

UTILIDADE NAS SALAS DE AULA

Professora do curso de intolerância e da educação básica, Lucimar Santos conta que frequentemente os docentes são confrontados com questões delicadas em sala de aula, evidenciando a necessidade de uma formação específica para lidar com o preconceito religioso.

- Trabalho em algumas prefeituras com crianças do 6º ao 9º ano e a intolerância é uma questão enfrentada diariamente. Muitos professores deixam de dar a aula completa de cultura brasileira devido à intolerância de alunos e pais a aspectos culturais africanos por remetê-los a outra religião - diz a professora, que é ex-testemunha de Jeová. - A banca do curso é bastante plural e jovem. Tem pessoas ligadas ao feminismo, ao antirracismo. Na verdade, eu considero este um curso sobre intolerâncias diversas, que não está sendo voltado apenas para o público religioso.

Os alunos do curso passarão por três módulos. O primeiro dedicado a fundamentação e contextualização, o segundo sobre intolerância, história e cultura e o terceiro com discussões sobre religião e sociedade. Entre as disciplinas estão Cultura Europeia, Cultura Africana, Sociologia, Antropologia da Religião, entre outras. Na ementa, o curso propõe "situar (os estudantes) com o objetivo de combater as práticas e a origem de atitudes de desrespeito, fundamentalismos e intolerâncias." O programa da pós-graduação também pretende mostrar os "riscos que uma atitude fundamentalista e intolerante pode representar para a democracia e a construção de uma sociedade de direitos."

Embora tenha nascido com o objetivo de promover a pluralidade e o respeito às diferentes religiões, o próprio curso foi alvo de preconceito em sua gênese. Ivanir dos Santos conta que foi procurado inicialmente por acadêmicos de uma universidade protestante para que construísse o curso. No entanto, o projeto precisou ser submetido ao líder religioso e, desde então, há mais de um ano, está engavetado na instituição. Diante do fato, o babalaô optou por sugerir o projeto para uma instituição católica:

- Essas pessoas me pediram o curso em janeiro do ano passado e até hoje ele não foi aprovado na instituição. Mas, felizmente, vamos conseguir realizá-lo em outra instituição. O curso é um marco, sobretudo por acontecer nesse momento de tanta intolerância e desrespeito, e ser sediado em uma universidade com aspectos confessionais - acredita.

O diretor do Departamento de Teologia da Universidade Católica de Petrópolis conta que, embora a proposta do curso tenha gerado surpresa , foi muito bem aceita pela instituição desde o início.

- É claro que a novidade de um tema como esse pode gerar uma certa surpresa. Contudo, já estávamos fazendo um diálogo inter-religioso há algum tempo. É cada vez mais importante que as religiões se unam para testemunhar que a fé também ajuda a convivência social e a paz. As pessoas veem a religião como algo agressivo, mas é o contrário. Precisamos que as pessoas estudem e conheçam as outras religiões.