V de vinagre

Publicado em 18/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

Faz quatro anos que o país foi convulsionado pelos protestos que se passou a chamar, de modo um tanto pomposo, de Jornadas de Junho. Conforme eles avultavam ao redor de uma classe política atônita, os comentaristas saudavam com assombrada reverência o que parecia uma nova Queda da Bastilha. Imaginou-se uma insurreição da cidadania, não uma onda passageira.

Talvez seja essa ingenuidade que faça aquele momento parecer já tão antigo, depois que fomos atropelados pelo que viria: reeleição, recessão, Operação Lava Jato, impeachment, governo Temer. Bem menos que uma revolução, a Revolta do Vinagre (manifestantes usavam a substância na crença de que ela reduziria os efeitos do gás lacrimogêneo) foi um prenúncio, insólito como raio em céu azul naquele 2013 em que a inflação ficou abaixo de 6% e a economia crescia a 3%.

O encadeamento dos fatos, embora imprevisível, tem lógica. Ignorando a cautela que recomenda reajustar tarifas de transporte em janeiro e agindo antes como interventor federal que prefeito eleito, Fernando Haddad curvou-se a Dilma Rousseff e adiou o reajuste para junho, quando deu origem a protestos que reuniram alguns milhares, na maioria estudantes.

São atos que interditam a avenida Paulista e terminam em depredação de fachadas e incêndio de veículos. No dia 11, perto do Tribunal de Justiça, um PM é encurralado e escapa por pouco de ser linchado pela multidão. Seu rosto coberto de sangue aparece na TV e na capa dos jornais, que reclamam providências. No dia 13, a polícia ataca os manifestantes com brutalidade. Há dezenas de feridos (15 jornalistas), quase 200 manifestantes presos.

Foi esse revide desproporcional que desatou a impressionante maré de protestos. Estima-se que, nas semanas seguintes, mais de um milhão de pessoas tenham marchado contra tudo pelo país afora, numa catarse sobre a qual virou clichê repetir que "ninguém está entendendo nada". Cartazes e memes pululavam; palácios como o Itamaraty, o Congresso e a prefeitura paulistana foram vandalizados. Para cúmulo do simbolismo, Haddad e o governador Geraldo Alckmin reagiram com soberba de onde estavam, nada menos que Paris, a cidade das regalias.

Em 19 de junho, a dupla se viu forçada a revogar o reajuste, o que fez o movimento recrudescer, insuflado pela vitória. Mas algo mudava. Grupos à esquerda do PT, que haviam deflagrado os protestos para logo perder controle deles, refluíram ao constatar que as passeatas eram engrossadas por um aluvião de direita, que os gritos de "sem partido" eram contra os partidos de vermelho (e assim os conservadores se apossaram das cores nacionais).

Ao mesmo tempo, os encapuzados que se imiscuíam nas marchas para arremessar projéteis incendiários e destruir patrimônio, geralmente após cair a noite, passaram a ser identificados como anarquistas adeptos da tática black bloc. Notoriamente infiltradas por arruaceiros, provocadores e agentes duplos, essas falanges estão naquele ponto tangencial em que a extrema-esquerda e a extrema-direita convergem no culto místico à violência; nesse pântano eclodiu no passado o fascismo, dissidência nacionalista do socialismo revolucionário.

O quebra-quebra afastou a maioria pacífica, e assim o movimento que mudaria os rumos da nação definhou com a mesma rapidez com que se inflara. Em agosto restavam bandos de obstinados tentando manter acesa, aqui e ali, uma chama que se extinguia. Mas seria errôneo atribuir esse abortamento apenas à truculência desigual e combinada da polícia e dos black blocs.

As manifestações de junho de 2013 seguiram um padrão internacional determinado pela mobilização por meio das redes sociais, e não é fortuito que também sejam chamadas de Primavera Brasileira. São movimentos como Occupy (Zuccotti Park, Nova York) e 15-M (Indignados, Espanha), ambos de 2011, além da própria Primavera Árabe (diversos países, 2010-12) e dos protestos na Turquia, simultâneos às jornadas no Brasil.

Condensam reivindicações às vezes contraditórias de justiça misturadas ao clamor contra abusos da autoridade e do capitalismo, que assumem uma configuração de protesto acachapante, formando um consenso tão súbito quanto superficial. Como não há acumulação orgânica de organização e debate, pois tudo se resume à reprodução impensada de slogans justiceiros e imagens chamativas, o processo tende a ser efêmero e inócuo.

Essas explicações talvez esclareçam seu sentido aparente, não o oculto. A história é a arte de prever o passado, de discernir nele significados que ainda estão por se completar. Como saber o que aconteceu em 2013 se ainda não sabemos o que acontecerá em 2018?